Interpol - El Pintor

Interpol – El Pintor

Same town, new story

Sou suspeito quando falo de Interpol. Há muito tempo, quando pregava que todos deveriam ter uma banda favorita, Interpol era a minha. Tinha camisetas da banda, CDs e até um vinil (mesmo sem ser acostumado com bolachões). Ao mesmo tempo que sou o primeiro a elogiá-la, também sou a pessoa que poderia escutar algo deles e dizer “isso não é Interpol, cara”.

E aí que os caras lançaram um disco novo, com essa linda capa antes do título. E não é que ele é bom pra caramba?

Me entenda: depois de Turn On the Bright LightsAntics, a banda trouxe Our Love to Admire. O terceiro disco é bem diferente dos primeiros. Parecia parte de um processo de evolução, de mudança. Aí então veio Interpol (isso mesmo, um disco com o nome da banda) e mostrou que as coisas realmente mudaram. Um integrante estava para sair e, sei lá, os caras envelheceram ou começaram a tomar coca ao invés de pepsi. Alguma coisa rolou.

Eu (suspeito) adorei Interpol. Era rico, diferente, cheio de alma. Muita gente não curtiu. Achou diferente demais. O baixista Carlos Dengler saiu da banda e o disco novo estava demorando. Os fãs tinham medo do que viria por aí. Medo do Interpol não ser mais o mesmo. Medo.

Mas aí chegou El Pintor e fez o queixo de todo mundo cair.

A mesma banda em um novo momento. É diferente? É. Mas de jeito nenhum é ruim. O disco traz 10 músicas, algumas fantásticas (como a do vídeo acima) e outras nem tanto, mas ainda muito boas. Como um trabalho só, um disco as is, o álbum está ótimo. Dá para sentir um pouco dos dois primeiros CDs, bastante Our Love to Admire e ainda mais do CD homônimo.

Com ótimos riffs de Daniel Kessler, a voz triste de Paul Banks (e os baixos, já falo disso) e a bateria de Sam Fogarino, fiquei muito feliz em mais uma vez ter Interpol em meus fones de ouvido. Músicas como All The Rage Back Home, cujo refrão é pegajoso e com melodia bem feita, marcam o disco. My Desire tem uma frase de guitarra que se repete e enche a música sem muita complicação. Same Town, New Story (que é meu título para a transição da banda) tem outra frase interessante, ainda mais ligada à bateria e ao tecladinho da introdução.

Interpol é uma banda velha com elementos novos. Ouvir El Pintor foi como receber um amigo que não vejo há tempos e, olha, ele deixou a barba crescer e está com um novo corte de cabelo. Até trouxe umas coisas novas e whoa, TIDAL WAVE.

O disco é curto, com mais ou menos 40 minutos. Ouvi-lo em uma sentada é legal mas cansa um pouco nas últimas músicas, o que faz a curteza ser essencial. Se El Pintor tivesse, digamos, uma hora, seria cansativo demais chegar nas últimas canções. Não me parece que há uma ordem correta ou incorreta de músicas a serem ouvidas (além das três primeiras —que são primeiras de propósito), então dê play do início ou solte o shuffle.

Uma das coisas que não me agradaram no disco foi o baixo. Como foi o próprio Paul Banks quem gravou o instrumento, faltou o molejo de um baixista, com notas pulsantes, bem pensadas e colocadas nas músicas como só um baixista põe. Everything is Wrong é uma dessas faixas que perdem pontos por ter um baixo ruim.

Uma das coisas mais chamativas no primeiro álbum da banda é o baixo bem executado. Mas, como eles mesmo dizem na primeira frase de Ancient Ways…

Sobre Angelo Dias

Editor do Eks, Angelo Dias é diagramador na Folha de S.Paulo, jornalista de formação e aficionado por quadrinhos, games e séries. Fala bobeiras no @angelod1as, quer fazer um podcast e está aprendendo acordeon.

Podcasts, Podcasts, Muitos Podcasts!

Imagine um mundo no qual fazer academia, caminhar ao início ou fim do dia e ou mesmo exercer quaisquer atividades que não dependam de tanta atenção fosse menos chato.

Até o início deste século apenas a música nos proporcionava tal mundo.

Agora, imagine um mundo no qual você possa exercer sua atividade estressante do dia a dia, aprender algo novo, dar boas risadas e ou mesmo conhecer novas histórias.

Sim, este mundo existe. Trata-se do mundo dos podcasts. E é sobre eles que vou falar hoje, os maravilhosos podcasts.

Por motivos óbvios não pretendo falar de programas que já manjados. Esses eu imagino que você já conheça, e caso não o faça basta clicar nesta lista feita pelo site YouPIX . O foco desta lista será indicar alguns que não são de conhecimento geral, que sejam de pequena expressão e que sejam produzidos no Brasil.

Então vamos lá! :)

GorilaCast

Gorila Cast Podcast

Deixo como primeira indicação o Gorila Cast, um podcast de conteúdo singelo, divertido e em alguns momentos até simplório.

Não que estes sejam adjetivos negativos, na verdade é sempre bom ter podcasts em sua playlist que sejam mais leves e fáceis de digerir e que não requeiram tanto da sua atenção.

O ponto alto do Gorilacast está na interação entre os membros participantes.

Como são todos amigos e conhecidos a dinâmica da conversa entre eles soa muito agradável, e sem perceber você estará se sentindo quase que como presente na conversa.

Adicionalmente o podcast é gravado em estúdio, o que confere a ele uma excelente qualidade sonora e uma boa imersão.

Como introdução para o podcast recomendo os episódios 56 e o episódio 74 

Vale lembrar que o podcast tem outros episódios além dos supracitados e são os episódios que este nobre editor que vos escreve escolheu. Por tanto, se não gostar dos episódios indicados não fique triste, tente outros. E se mesmo assim não curtir muito não se preocupe, talvez algo abaixo na lista lhe agrade.

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Jogabilidade! Podcast

Que tal um podcast sobre games focado em toda a parte cultural e intelectual do meio, mas com eventuais dicas de joguinhos?

Para suprir a sua falta disso “Sim, você sente falta disso, só não sabe ainda” existe o podcast do site Jogabilidade, na verdade os podcasts.

O site em si conta com duas colunas em áudio com propósitos diferentes:

O Dash podcast é responsável por discutir o mundo dos videogames mais a fundo. Desde uma série de jogos que são debulhados ao máximo pelos integrantes até um Episódio totalmente dedicado a entender a real importância do nome de um jogo mercado logicamente e ideologicamente.

Já o Vértice podcast dedica-se a manter o ouvinte atualizado sobre o mundo dos videogames. Notícias sobre a indústria, novos lançamentos e dicas a respeito do que os integrantes tem jogado integram a segunda coluna do site Jogabilidade.

Adicionalmente os caras estão iniciando com uma série de podcasts com foco em Animes e Mangás denominada

Jack (Jogabilidade Anime Club Knights), que também vale a sua atenção.

Por tanto não deixe de conferir o podcast dos caras, você vai se surpreender.

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CocaTech Podcast

Manter-se atualizado sobre tecnologia hoje em dia é um verdadeiro desafio.

São milhões de blogs, feeds, redes sociais e outras fontes de informação que nos atualizam a cerca de tudo o que ocorre.

Mas e se houvesse um podcast diário que desse todas atualizações a cerca desse meio de forma simples e precisa?

Na verdade ele existe, trata-se do podcast CocaTech.

Apesar de ter no subtítulo “Seu podcast diário desde um ponto de vista Apple” o conteúdo é bem imparcial e de grande proveito para qualquer um que goste da área de tecnologia.

Este autor que vos escreve é um feliz proprietário de um smartphone Android e mesmo assim adora o podcast supracitado.

Notícias sobre o mercado mobile, inovações, registros de patentes, novidades, dicas de apps, está tudo lá, todo dia.

Claro que usuários de produtos Apple vão tirar maior proveito do podcast, mas isso não invalida a audição por parte daqueles que possuem Android.

De qualquer forma, se você procura por um podcast Daile News com notícias exatas e produzido com boa qualidade e esmero fica aí a indicação do Podcast CocaTech.

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Sobre Comédia Podcast

É difícil encontrar quem não goste de uma boa comédia. Alguns mudos inclusive diriam que é impossível.

Cegos diriam que nunca viram tais pessoas. E paraplégicos por sua vez diriam que correriam atrás dessas pessoas para tirá-las do mundo.

Brincadeiras a parte, o mundo da comédia tem milhares de nuances que a maioria das pessoas desconhecee que são realmente interessantes.

E focado nesse aspecto existe o podcast Sobre Comédia, um podcast dedicado a debater o mundo da comédia em geral, seja sobre comediantes internacionais, shows e eventos ou mesmo sobre a comédia nacional e seus mecanismos mais ocultos.

Por tanto, se você gosta de comédia é uma audição obrigatória para o dia a dia.

Como indicação recomendo o Episódio 16 gravado com o genial Alexandre Nix que será citado posteriormente neste artigo.

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Tecnocast Podcast

Já falamos a respeito do CocaTech, um podcast quase que de notícias sobre tecnologia pura e simplesmente.

Mas, e que tal um podcast de tecnologia focado em cultura, comportamento e no mercado em si, e não apenas nas notícias?

Temos aqui então o Tecnocast, o podcast com o peso do nome de um dos maiores blogs sobre tecnologia do Brasil.
Com foco em temas realmente diferentes e debates ideológicos muito interessantes o podcast deve agradar até mesmo aqueles que não são exatamente fãs de tecnologia.
Duvida, então clique aqui e ouça este excelente episódio sobre o copiar e colar dos blogs brasileiros.

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Overcast Podcasts

Por fim temos a melhor recomendação, ou as melhores. Tudo depende da sua interpretação.

O site Overcast é muito mais do que um site com podcast. Na verdade ele merecia um artigo separado no Eks, mas já que já estamos falando de podcasts;

Idealizado por Alexandre Nix o site Overcast tem o que podemos dizer que seja o conteúdo mais inovador em podcasts produzidos no Brasil.

São três grandes atrações, as quais destacarei individualmente abaixo.

Verdades Absurdas

Imagine um jogo disputado em áudio onde competidores degladeiam-se entre si mentalmente para tentar detectar o que é verdade e o que é mentira em uma série de provas diferentes.

Este é o Verdades Absurdas, um podcast informativo e extremamente divertido que já está em sua segunda temporada.

Cada episódio trás novos competidores além dos capitães de equipe sempre presentes. São milhões de gargalhadas possíveis.

Como indicação inicial deixo o Primeiro episódio da série, já que se trata de um podcast diferente e você precisará entender algumas regras a princípio.

Muito Amor Podcast

Temos outro jogo em áudio, mas dessa vez com menos regras e regras menos complexas.

Trata-se do podcast Muito Amor, o podcast que visa enfatizar o melhor e o pior de cada um dos seus competidores e ouvintes.

Apresentado pelo genial João Carvalho , o podcast conta com participações de pessoas ilustres do humor brasileiro como Ulisses Mattos, Nigel Goodman, Pece Siqueira e Rodrigo Fernandes do Jacaré Banguela.

Como podcast inicial a se ouvir deixo também o Primeiro episódio

Record Hop Podcast

Por fim falemos do Record Hop Podcast, um podcast que não é exatamente produzido por Nix ou pelo Overcast em si, mas que é integrado ao site e possui igual qualidade.

Mais voltado ao que já conhecemos e entendemos naturalmente por podcast na internet, o Record Hop é um bate-papo entre dois amigos. O diferencial está nas histórias hilárias e nas trilhas dos anos 40, 50, 60 e 70, ou seja, tudo o que se encontra nos antigos discos compactos.

Uma boa indicação tanto para quem gosta de boa música como também para quem gosta de boas histórias.

Como recomendação deixo o Episódio 26 sobre Shows e experiências que ficou muito bom.

Mas Não Para Por Aí

Estes são apenas alguns dos conteúdos geniais do site Overcast . Há muito mais material de qualidade lá, incluindo podcasts experimentais e textos escritos por colaboradores. Vale a pena você conferir.

Bem senhoras e senhores, é isso. Espero que algo da lista lhes seja útil e que vocês gostem de algum ou até de todos os podcasts aqui apresentados.

No fim haviam muitos mais podcasts a serem indicados mas, como o texto já ficou enormemente gigantesco haverão outros iguais.

Ah sim! Se você conhece algum podcast e quiser indicá-lo basta deixar seu comentário, será de grande valia a todos.

Obrigado pela leitura e até a próxima! :)

Sobre Jonas S. Marques

Se pudesse programaria a própria vida. Como não pode, programa por dinheiro. Fã de músicas, séries, filmes, games, aventuras, bebidas, comidas e o que mais o mundo lhe der, também é dono de um estranho e contraditório gosto pra tudo. Toca vários instrumentos mas não possui nenhum no momento: Aceita doações; \o/ Ah sim, é cego e péssimo em sínteses sobre si mesmo.

c. 1762
Oil on canvas, 95 x 79 cm. Museo del Prado, Madrid

Música e Sexo: um ensaio – Parte 2

Corpo, Cultura e Imaginário

Corpo e cultura são mutuamente referentes. Ao passo que a nossa percepção do corpo lança significados na cultura e no imaginário, esta mesma cultura e este mesmo imaginário  ganham força, ressignificam e reconfiguram a nossa própria percepção do corpo.

O comunicólogo alemão Harry Pross é o articulador de uma retomada do corpo nos estudos das Ciências da Comunicação. Para ele, o corpo, material e sensorial, é a mídia primária de toda comunicação. O contato elementar humano, olho-no-olho e pele-na-pele, e a linguagem gestual do corpo é a primeira forma de vinculação, sem a necessidade de aparatos. Isso expandido leva à compreensão, conforme os também alemães Gunter Gebauer e Christoph Wulf, de que o primeiro contato com o mundo e a primeira apropriação do mundo se dão pelos sentidos do corpo. Vale a citação:

[...] a mão toca, agarra, abarca, separa e anexa o corpo. Ela cria um espaço que ela preenche, estrutura e dá forma. Objetos são concretizados com o tempo e no tempo de acordo com determinados ritmos: eles tornam-se coisas reconhecíveis. As ações corporais são interpretações práticas. Elas produzem a certeza da existência do mundo circundante com todos os seus objetos e relações culturais. Elas arranjam seu próprios fundamentos seguros. Nas interpretações práticas [do corpo], o mundo tem sua primeira gênese — Em Mímese na Cultura, Gebauer e Wulf

Sensorialmente, nos apropriamos e damos sentido ao mundo. Tornamos-o reconhecível. Atribuimos a ele significados. Projetamos imagens, enfim, sobre as coisas que percebemos. Assim, o nosso corpo não é somente corpo, biológico, mas é corpo cultural. O pênis ou a vagina não são somente genitálias, são símbolos. E símbolos são ambivalentes: eles são, ao mesmo tempo, a si próprio, e a outra coisa. O pênis é, ao mesmo tempo, genitália e guerreiro na cultura Wauja. O pênis, ao mesmo tempo, propicia prazer, como os índios se gabavam, e impõe uma forma de poder, na sua natureza guerreira.

Como argumenta Norval Baitello Junior, a percepção do corpo, pela própria da percepção do masculino e feminino, irá ditar projeções cunhadas em moldes dicotomizadores e profundamente arcaicos. Também a percepção da bifacialidade do corpo, constituido em um lado direito eum  lado esquerdo, conduz a concepções polarizadoras, como entre o Bom e o Mal, o Sério e o Não-Sério. O sexismo é, ao que me parece, uma das expressões dessa percepção. E, ao passo que apreendemos o corpo e lançamos tais imagens na cultura, essas mesmas imagens, por sua vez, transmutam a própria maneira como apreendemos o nosso corpo. O sexismo, por exemplo, irá moldar o que pensamos como sendo o homem, em seu corpo e papel, e a mulher, em seu corpo e papel, colocando-os como pólos opostos. São imagens que moldam o nosso própio jeito de agir e perceber uns aos outros.

O sexo é uma experiência sensorial. E, igualmente, lançamos imagens sobre o sexo que, por sua vez, moldam a própria maneira como apreendemos o sexo. Estas projeções são, como pretendo sugerir, também processos culturais profundamente arcaicos. E, na música, as imagens do sexo aparecem. Quanto mais arcaico é o tema, mais arquetípicas são as imagens que nos contam sobre esses temas. Por isso penso que, para aprofundar na reflexão sexo-música, é preciso olhar para as imagens arquetípicas do deus Pã e das ninfas, na mitologia grega.

Pã e as Ninfas

Jung sabia que, primordialmente e culturalmente, nós personificamos em imagens as nossas experiências e nossos conhecimentos antes mesmo de conseguirmos formular a abstração de um conceito, de uma palavra. Por isso as imagens arquetipicas de Jung são figuras personificadas: a mãe, o pai, o ancião, etc. O deus Pã e as ninfas são, também, personificações que contam da relação do homem com a natureza, e da relação do homem com a própria imagem.

Na cultura ocidental, predominantemente de tradição judaico-cristã, as imagens de Pã e das ninfas foram reprimidas. Tanto é que as representações imagéticas do Diabo são, geralmente, de um homem com chifres e pernas de cabra, tal qual o deus grego. A repressão dessas imagens estão ligadas a patologias: o pânico e a ninfomania.

Pois Pã é o deus grego da natureza, e as ninfas são a natureza personificada no feminino. Mas a natureza que essas imagens representam não é aquela da paisagem incólume: a natureza como aquilo que está fora do homem. Falam de uma natureza do próprio humano, de seu mistério e de seu caráter animalesco. E, aqui, venho me refero especialmente a Pã. Pois quem é Pã?

Muito do que escrevo sobre Pã parte da leitura do livro Pan and the Nightmare, de James Hillman. Também chamado de Sátiro ou Fauno, Pã é o deus-bode, meio homem e meio caprino. Há vários mitos em torno de seu nascimento, mas o principal deles conta que Pã é um filho bastardo de Hermes. Pã teria sido levado ao Olimpo pelo pai, e todos os deuses simpatizaram com ele. Porém, nunca foi aceito para morar entre eles. Pastor, o deus habita as florestas e persegue as ninfas para com elas transar. Suas representações imagéticas comumente o mostram com o pênis disproporcional e sempre ereto. A ele também é associada a invenção da masturbação.

Uma estátuade Pã. Como costumeiro, ele é representado com o pênis em ereção.
Uma estátuade Pã. Como costumeiro, ele é representado com o pênis em ereção.

A natureza que Pã representa não é idílica, como afirmei. Com o pênis sempre em ereção e o caráter de animal , Pã é a imagem da natureza misteriosa e da natureza do próprio humano.Todos os deuses simpatizaram com Pã, pois todos se reconheciam nele de alguma forma. Isto é, todos somos um pouco Pã. É uma imagem também ambivalente: ao mesmo tempo que representado como pastor, e portanto protetor, ele é temido (daí o pânico) e duro (Assista “O Labirinto do Fauno” e depois a gente conversa). Esse lado destruidor aparece justamente na perseguição das ninfas: ele tenta estuprá-las, elas fogem e ele se frustra.

As ninfas, por outro lado, representam a natureza graciosa, sedutora, tenra e, também sensual. Elas são descritas, como aponta Giorgio Agamben, como espíritos elementais. Não são animais, porque pensam e falam, mas não são humanas, pois não têm alma. Para ganhar alma e, então, tornarem-se humanas, precisavam se deitar com homens e conceber filhos (daí a ninfomania).

Pã e as ninfas nos dão pistas da relação conflituosa da humanidade com a imagem. Por um lado, Pã se masturba, e o que é a masturbação se não o sexo com uma imagem? Por outro, as ninfas, que são imagens, são nem humanas nem animais, devoram sexualmente os corpos dos homens para tornarem-se humanas, assim como as imagens nos devoram (Leia A Era da Iconofagia, por Norval Baitello Jr.)

E cadê a música? Conta o mito que Pã perseguia uma das Ninfas, Syrinx. Percebendo que não poderia fugir, Syrinx pede as ninfas das águas às margens rio Ladon, as náiades, para que mudassem sua forma. Assim, ela se transmuta em bambus. Pã fica desolado por não obter a Syrinx, mas, ao ouvir o som do vento nos bambus, o deus faz deles um instrumento em homenagem à ninfa, a flauta de pã.

"Pã e as Ninfas", de Jean François de Troy.
“Pã e as Ninfas”, de Jean François de Troy.

Sempre com sua flauta, Pã é um amante da música. Porém, ainda que ele seja um compositor, as musas não estão com ele, mas com Apolo, o patrono da música no panteão grego. Portanto, pensar em música e sexo não é recorrer à imagem de Apolo, que representa o transcendental e o ordenado na música, mas a imagem de Pã, que nos remete ao humano. É um deus renegado, assim como é essa natureza humana a qual ele representa. Mas, em detrimento ao caráter apolíneo da música, ordenado e racional, Pã nos revela esse humano misterioso que também há na música. E a ambivalência de Pã é também uma ambivalência na música: as vezes protetora e bondosa, as vezes dura. E assim também é no sexo. A chave de reflexão que aciono para sexo-música parte muito desta ambivalência do deus grego, do seu pênis sempre ereto e da perseguição das ninfas.

A estátua de Fauno (Pã) do Parque Trianon, em São Paulo. Com ele, sempre sua flauta.
A estátua de Fauno (Pã), de Vitor Brechere, no Parque Trianon, em São Paulo. Com ele, sempre sua flauta.

Hilman afirma que é preciso retomar Pã na cultura para deixar de reprimir alguns sentimentos humanos, como há a repressão da masturbação, por exemplo, e a repressão do desejo sexual feminino. Que o estupro personificado em Pã é, sim, um comportamento violento  deve ser combatido, mas mesmo a loucura pode ser curada justamente pela imagem de Pã. Ele é o deus da loucura e, ao mesmo tempo, de sua cura (E não se fala em um culto religioso a Pã, mas em um tratamento psicoanalítico pela imagem de Pã). E muito dessa cura está justamente relacionada à música: afinal, ele toca seu instrumento para saciar o seu encejo contra a ninfa Syrinx.

Tiago colocou bastante de si neste texto. Colocou tanto que precisamos separá-lo em três partes! Esta foi a segunda. A terceira será publicada no sábado seguinte e a primeira pode ser encontrada no link abaixo.
PRIMEIRA PARTE

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Imagem destacada: Pã e Syrinx, de François Boucher. Circa 1762, óleo sobre tela, 95 x 79 cm. Museo del Prado, Madrid

Sobre Tiago Mota

Tiago Mota é jornalista e mestrando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pesquisa sobre games e incorporações da tecnologia digital em ambientes comunicacionais e se interessa por música, cerveja e PoKéMoN!

Once Upon a Time

Era uma vez, em um reino distante, uma linda princesa chamada Branca de Neve que, por trair a confiança e destruir a vida amorosa de sua madrasta Regina, conhecida posteriormente como Rainha Má, teve que se refugiar na Floresta Encantada para não morrer. No fundo, Regina é boa e Branca tem uma pitada de maldade no coração. Literalmente.

Entre uma flechada e outra, Branca de Neve conhece Mulan, a princesa Aurora, a Sereia Ariel e tenta roubar as joias de seu futuro marido, o Príncipe Encantado. Sim, todos os personagens dos contos de fadas, de alguma maneira, se conhecem e você pode conhecer o que os livros infantis não contam na série Once Upon a Time.

A história se passa na cidade fictícia Storybrooke, no Maine. Todos os moradores da cidade são personagens dos contos de fadas que vieram morar no mundo real depois de uma maldição lançada pela Rainha Má. Porém, eles nada sabem sobre a maldição, nem mesmo sobre o passado. É interessante refletir quando alguém faz a pergunta: de onde vocês se conhecem? E a resposta: não sei, sempre foi assim. Eles vivem fazendo coisas normais, não há reinos, dragões, ou magia. Talvez só um pouco de magia e um dragão muito bem escondido.

Os principais da historinha

O propósito da maldição e a solução para acabar com ela são a grande chave da série. O que se sabe é que a maldição pode ser quebrada por Emma Swan, a única pessoa que foi salva da magia sendo enviada para outro mundo, o nosso mundo. Mas nem tudo é tão simples. Com a ajuda do seu filho Henry, ela briga consigo mesma, contra as coisas em que acredita e, principalmente, contra seus medos. Ela descobre, assim como muitos outros personagens, que a única maneira de superar os medos é enfrentando-os.

Em uma terra de poderes mágicos, muitas trocas e promessas são feitas, cumpridas e quebradas. E é sempre importante lembrar que toda magia vem com um preço, então é bom tomar cuidado com o que você deseja. Será que vale tudo para alcançar a felicidade? Magia pode até resolver, mas não por muito tempo. Depois que se descobre o preço do poder, aprende-se que ser feliz é uma promessa que se deve fazer a si mesmo todos os dias.

Antes que esse texto se torne meloso demais, garanto que o suspense da série é mantido do começo ao fim. Cada episódio foca em um personagem, mostrando a relação dele com a história. Todos os detalhes do passado revelam uma ligação com o presente, fazendo o espectador se envolver e tentar desvendar os próximos passos.

Estamos no aguardo da 4º temporada, que foi anunciada em maio deste ano. Cada temporada tem 21-22 episódios que vão exigir fôlego para 40 minutos de tensão e suspense.  Once Upon a Time é uma série criada por Adam Horowitz e Edward Kitsis, que também fizeram parte da produção de Lost. Confira a série e veja que os contos de fadas podem ser muito mais do que você supõe.

Sobre Ludimila Honorato

Jornalista, leitora, violinista em algumas horas da semana. Quero histórias pra contar. Costumo escrever subjetividades, numa tentativa de me libertar do que vejo e não quero dizer, do que sinto e não quero calar. Prefiro frio a calor, odeio baratas, gosto de séries, livros, gatos, cozinhar, conhecer novos lugares e, principalmente, comer nesses novos lugares.

Esbjörn Svensson Trio – E. S. T.

Simplicidade extrema em quase todas as músicas, melodias econômicas e precisas. Esse é o trio de jazz com capacidade ímpar de sinergia. Descobri a música de Esbjörn Svensson Trio (E. S. T.) totalmente por acaso, ouvindo uma rádio de jazz no last.fm. Dos acasos bons da vida. O grupo – composto pelo líder Esbjörn Svensson no piano, Magnus Öström na bateria e Dan Berglund no contrabaixo – tem 11 discos ao todo, sendo dois lançados após a morte de Svensson, em junho de 2008.

Na música de Svensson há elementos inusitados de experimentação, como os papéis que o líder do trio colocava entre as cordas do piano para o efeito de staccato, em Elevation of Love. Distorção no contrabaixo acústico. Distorção no piano. Bateria extremamente minimalista em algumas músicas. Na verdade, sempre tenho dificuldade de imaginar um baterista tocando algumas músicas deles, porque o minimalismo em certas composições (por exemplo, From Gagarin’s Point of View) é tão forte que, em relação à maioria dos bateristas que conheço, penso que eles ficariam um pouco irritados em conter-se e tocar tão pouco.

A música do trio é assim: sem espaço para estrelismos. Embora certamente virtuosi(confira algumas músicas, a exemplo do piano destruidor de When God Created the Coffee Break, ou alguns solos absurdos de contrabaixo acústico com distorção que surgem em versões ao vivo no Youtube), o trio trabalha para a música. Há uma energia intensa e de certa forma contida nas composições que me cativa profundamente. Existe uma categoria de músicos que são verdadeiros snipers: todas as notas são certeiras e matadoras. Aliás, penso que devo ter imaginado essa comparação após ouvir a música deles.

Inclusive, algumas músicas deles me emocionam de forma tão profunda (como a Serenade for the Renegade), que eu não consigo ouvi-las a qualquer momento, porque a força gravitacional dessa música, em especial, atrai-me de forma esmagadora e é difícil conter a emoção. Aliás, um amigo querido – a quem apresentei a música do trio – encantou-se por eles e compôs uma música chamada Serenade for Svensson. Gravei-a numa segunda-feira, e a expectativa de homenageá-lo me foi tão forte que mal consegui dormir do domingo para a segunda. Um momento que estará pra sempre registrado em minha memória como um dos meus dias mais felizes.

Minha recomendação é que você, primeiramente, ouça dois discos deles, o Seven Days of Falling e o From Gagarin’s Point of View, que são os meus preferidos. Uma recomendação também é assistir a alguns vídeos do trio no Youtube, onde você pode ver claramente três pessoas existindo naquele momento como se fossem apenas uma. Existindo para a música.

Preste atenção nesse solo de baixo. É uma das coisas mais rock and roll que você vai ouvir na vida, prometo:

O clipe de From Gagarin’s point of view é de uma simplicidade e beleza impressionantes:

Como uma frase tão simples de baixo pode dizer tanta coisa?

Sobre Walter Cruz

Walter Cruz é um paulistano que encontrou seu caminho na capital, ainda que não tenha perdido totalmente o sotaque de São Paulo,. Apesar de dizer querer ser um robô, vive o paradoxo de acreditar acima de tudo no ser humano. Ama música, porém não sabe assoviar. Seu pecado capital favorito é a preguiça. Leva a sério a máxima do Dr. House: Todo mundo mente. A começar por ele mesmo.

Miguel e os Demônios, Mutarelli

Pra quem conhece pelos menos algumas obras em quadrinhos de Lourenço Mutarelli, esse romance fará você se reencontrar com uma faceta do escritor que a algum tempo não se via. O abismo da mente humana. Miguel e Os Demônios.

Editora Companhia das Letras
Editora Companhia das Letras

Nesta obra, o autor de “O Cheiro do Ralo”, narra como se escrevesse um roteiro de cinema a história do policial Miguel. O homem, atormentado e cheio de manias, é designado para matar quatro jovens drogados em uma espécie de limpeza da cidade, ao mesmo tempo em que se defronta com uma múmia mexicana, repleta de moscas, na casa de um travesti com quem começa a se envolver. A partir daí, seu caminho de degradação e queda é visível: volta a fumar, deixa de fazer a barba, vê seu pai sofrer um AVC, alucina… Um caminho sem volta numa trajetória que parecia, até então, improvável.

Lourenço Mutarelli

Mesmo não seguindo o formato-padrão de roteiro traz indicações de movimento de câmera e de fusão de cenas. É escrito de forma predominantemente visual e tem sua narrativa feita em diálogos. Nesse vídeo o autor fala um pouco sobre a obra.

Cara… pra quem já é fã, como eu, da obra do Lourenço esse livro é mais um “incomodo”. Mas, se você não conhece nada, não comece por este livro. Comece pelos romances “O Cheiro do Ralo”, “Jesus Kid”, “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” (Livro que o Angelo não gostou porque ele tem mau gosto =P* ). Dos quadrinhos recomendo “Diomedes” (Trilogia fodastica… falarei sobre ela um hora dessas), “A Caixa de Areia” ou “Eu te Amo Lucimar”.

Abraço do Zé!


 

*Nota do Angelo, o editor: Quando li “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” ainda estava na faculdade e não tinha muita noção das coisas. Hoje recomendo o livro a qualquer um que estiver cansado de romacezinhos baratos e querem algo mais cru, verdadeiro e até repugnante.

 

Sobre Zé Padua

Wesley Padua, vulgo Zé. Livreiro a pouco tempo, que as vezes parece uma eternidade. Amante da uma linda mulher Tamih. Leitor ávido de quadrinhos periódicos, leitor "sob controle" de literatura e afins. Grande fã de música boa independente do gênero, mas nada de me chamar de "eclético" (Afff..). Apreciador de cervejas, uísques, tequilas, cachaças, charutos, ervas... e tudo mais que é bom na vida.

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Idea Channel

“Eis aqui uma ideia, Hora de Aventura é popular por conta da nostalgia? Dr Who é um tipo de religião? Existem regras para spoilers? Será que o universo é um computador?” O youtube está nos tornando mais espertos?”

E com perguntas desse tipo, Mike Rugnetta, apresentador do PBS Idea Channel, começa todas as quintas-feiras neste canal tão peculiar a discutir, examinar e propor reflexão sobre diversas facetas da cultura pop, tecnologia e arte incluindo elementos filosóficos e estudos neste imenso caldeirão de ideais.

PBS Idea Channel começou sua jornada em Março de 2012 e conquistou grande parte da internet com seu conteúdo inteligente e seu super carismático apresentador. Eu tropecei no canal meio sem querer nas minhas peregrinações pelo youtube com o vídeo “Dungeons & Dragons pode torná-lo uma pessoa confiante e bem sucedida?”

Desse video então abriu se uma porta para mim e logo me vi assistindo os demais vídeos do canal e aproveitando não apenas as ideais que realmente podem nos fazer refletir como o humor das imagens e gifs que a excelente equipe de produção inclui e que mantém você atento e focado enquanto acompanha a conversa rápida do Mike.

Deixo aqui para vocês então as minhas recomendações de vídeos favoritos do canal para que vocês deem uma experimentada:

“Nic Cage é a intersecção entre o Taoismo e o YOLO”

“Hora de Aventura é fantástico por conta da nostalgia?”

“O que o Papai Noel e luta livre tem em comum?”

“Será Community uma obra-prima Pós-Moderna?”

“Existem regras para Spoilers?”

O canal tem conteúdo diversificado como vocês podem ver pelas sugestões, assuntos desde anime, jogos, cultura, e ficção e gatos são discutidos nos vídeos semanais para todos os gostos.

E então, o que vocês pensam disso, Idea Channel realmente é um canal sensacional como esse artigo diz? Deixe nos sua ideia nos comentários, e se você quiser se inscrever…bom, marque essa página nos seus favoritos!

Sobre Marco Junior

RPGista velha guarda tanto dos jogos de papel como os eletrônicos, fã de variados estilos musicais, com uma paixão pelas grandes vozes dos anos 50 e Bluegrass. Ficção pós-apocalíptica e universos fantásticos são meu lar. Gosto de muitas séries e filmes de gêneros variados. Tenho um gato preto chamado Preto e meu computador é quase parte do meu organismo biológico.

Achievement Hunter

A internet sem dúvida se tornou o lugar de muitos acontecimentos e lugares interessantes. Alguns bons, outros nem tanto. Assim também acontece com a evolução do vídeo-game. Aproveitando esse universo virtual, surgiram as famosas e engrandecedoras “conquistas”. Para qualquer jogador moderno, troféus e mais troféus se empilham nos perfis sociais e em comunidades relacionadas dos game-maníacos. Foi dessa caça ao tesouro que surgiu a ideia de compartilhar a habilidade de ultrapassar desafios e exibir as vitórias com orgulho. Achievement Hunter é uma comunidade de gamers para gamers.

Achievement Hunter
Achievement Hunter

O site, na verdade, não se resume às conquistas apenas, mas tem um apanhado enorme de publicações em muitas áreas envolvendo jogos: lançamentos, previews, reviews, entre outros. Uma boa série é a Let’s Play, onde alguns dos editores apresentam games jogando e comentando (tudo em inglês, viu?). Eles avaliam alguns detalhes iniciais – gameplay, jogabilidade, gráficos, etc – para te ajudar a decidir se vai ser interessante jogar o título ou não.

Os caras não param por aí. Com toda a equipe trabalhando para o engrandecimento dos viciados jogadores fanáticos, as notícias são diárias, os posts constantes e o trabalho intenso. Com participação garantida em feiras e eventos da área de entretenimento digital, sempre haverá novidades. Atualizações vitais para quem acompanha o universo que gira em torno dos games.

O quarteto fantástico. Do alto, pela esquerda: Jack, Geoff, Michael e Gavin.

Além de tudo isso, sempre existem boas sátiras e risadas, claro, e também ótimas conquistas. Dentre as várias séries que acompanho no site, minhas preferidas são o engraçadíssimo Rage Quit, onde Michaeltesta sua paciência e habilidades jogando um game aleatório ou sugerido pela galera que acompanha o site. Ele é o cabeça quente da turma e sempre, de forma hilária, grava sua frustrante humilhação copiosa para o deleite dos espectadores.

Outra de minhas séries favoritas do site é o clássico Fails of The Weak, onde os simpáticos Jack e Geoff fazem um compilado semanal de ações mal-planejadas, motoristas terríveis, lançamentos patéticos de granadas e glitches insanos em diversos jogos. O número de fãs dessa brincadeira cresceu tanto que eles ultrapassaram esse ano a marca de 200 vídeos apenas para mostrar ao mundo os piores e mais azarados jogadores de todos os tempos.

Achievement Hunter é um daqueles sites para você acompanhar semanalmente, para não perder nenhuma novidade do mundo dos games. Notícias, dicas, reviews, previews, walkthroughs, entretenimento e risadas. Muitas risadas. Diversão e informação garantidas.

Sobre Paulo Mattos

Gamer, músico, crítico amador de cinema, comilão e beberrão. Adora estar por dentro de tudo e diz que entende de várias coisas um pouco. No fundo, acaba não entendendo nada e tem que reescrever tudo de novo.

Índios Wauja se preparam para uma dança ritual no Alto Xingu (Foto: Nicolas Reynard/The New York Times)

Música e Sexo: um ensaio – Parte 1

Sexo é um tema fértil  na cultura — com o perdão do péssimo trocadilho . Todos nós falamos sobre “aquilo”,  e o projetamos nas mais variadas formas. Pois, sendo a atividade sexual parte da nossas experiências sensoriais, é inevitável que, a partir daquilo que sentimos ser o sexo, não projetemos representações e imagens sobre o sexo no imaginário coletivo. Assim, o “lepo lepo” também se transmuta em imagens poderosas da nossa cultura. Esse imaginário do sexo acaba por tomar parte na formação do nosso corpo cultural. E, é claro, isso aparece nas músicas que compomos e escutamos.

Nessa minha reestreia no Eks estou fugindo um pouco daquele padrão de recomendar alguma coisa. Sim, vou indicar algumas músicas sobre sexo. Mas no propósito de refletir, por pouco que seja, sobre o sexo na cultura e essa relação com a música. Não. Você não encontrará aqui um top 10 com trilhas para a seu sarrinho. É sobre sexo, não para o sexo.

Pensando sobre essa relação, jogarei para o debate duas formas de representação do sexo na música: como hedon e como agon, como prazer e como poder respectivamente.

Música como a linguagem do ritmo e do tempo

Mas temas sexuais aparecem em todas as formas de arte e nas diversas expressões culturais. E por qual razão, então, estamos falando especificamente de sexo e música? A música é a melhor linguagem para falar de sexo ? Claro que não é a melhor. Mas é particular. Há algo na própria linguagem musical, algo como mágico e vinculante, que faz dela uma forma de configuração especialmente prolífera para temas sexuais.

Refletir sobre essa relação entre o sexo e a linguagem musical é tarefa das mais árduas. Porque a descrição que se limita somente ao aparente não se atenta as raízes culturais profundas de tais representações. Ora, podemos afirmar que um ritmo em particular, como o do funk carioca, contém fortes conotações sexuais. Mas o quanto desta afirmação não seria baseada em 1) um preconceito predominantemente de classe contra o funk?; ou 2) uma representação do libido como algo errado, sujo e rude conciliado justamente a este preconceito?

Pois, se adentramos na reflexão para além de configurações dicotômicas, que aqui se apresenta no binômio carnal-divino, percebemos que a relação sexo-música é de caráter arcaico. Isto é, há um imagético do sexo estocado nas tradições culturais que encontra também na música uma forma de expressão.

Vejamos, por exemplo,  a música e o sexo na cosmologia da população indígena Wauja, do Alto Xingu. Sexo é, para os Wauja, parte fundamental de suas vivências. Para se ter uma idéia, como conta o relato do Prof. Dr. Acácio Tadeu de Camargo Piedade,  os Wauja recomendavam que o pescador não transasse na noite anterior a uma pescaria. A explicação: os peixes sentem o cheiro do sexo dos humanos e fogem.

Dança cerimonial dos índios Wauja.
Dança cerimonial dos índios Wauja.

Quando o professor se desnudou perante a eles pela primeira vez, um Wauja foi verificar o tamanho de seu pênis. Perguntavam-lhe: o que deveriam fazer para ter um pênis maior? Muitos na tribo se queixavam de seus tamanhos. Pois a palavra dos Wauja para pênis ereto é kiyatapai ,  muito próximo de iyatapai,  que significa “quente”, ou peietepei, “bravo”. O pênis é representado, na própria linguagem, como um guerreiro. E ele fica bravo. Como tal, deve ser forte e, quanto maior seu tamanho, maior sua autoridade. Assim, se um um índio brocha, ele vira motivo de piada. A  questão do tamanho, portanto, não está necessariamente vinculada ao prazer feminino (Piedade relata que mesmo os “pequenos” se orgulhavam ao contar que dão prazer às suas mulheres), mas sim a uma necessidade masculina em estabelecer um tipo de superioridade entre os homens.

Percebe-se que o sexo se mostra como parte central da vivência socio-cultural dos Wauja quando ganha caráter de ritual. Entre eles, a comunicação ou a vinculação com o mundo dos espíritos se dá por rituais que tratam de sexo. Tais rituais são sempre acompanhados de música –um uso particularmente intrigante da música.

O principal exemplo: a festa do pequi é uma celebração/ritual sazonal em agradecimento ao período de chuvas. Ela envolve a colheita e processamento do fruto pequi, a presença sobrenatural de animais que se alimentam de pequi e, finalmente, a separação da tribo em grupos de homens e de mulheres para jogos de sedução, geração de ciúmes, xingamentos e lutas. A abertura da festa se dá com o zunidor, ou matapu, e cantos coletivos masculinos, os kuri. O zunidor é um tipo de flauta associada a uma classe de instrumentos sagrados na cultura Wauja, os quais as mulheres não podem ver. Piedade não chega a comentar isso em sua tese, mas zunidores têm uma forma fálica. Os muitos tipos de matapu recebem nomes de diferentes peixes, representados por desenhos feitos em ambos os lados do instrumento. E, curiosamente, o peixe aparece como símbolo fálico de fecundidade em culturas do oriente e na iconografia indoeuropeia. O matapu não é usado fora do contexto da festa do pequi, e está sempre associado ao kuri, cuja a intenção é, apenas, a de causar ciúmes nas mulheres por meio de elogios às amantes. Além disso, os zunidores são tocados sempre em pares, sendo que um par de zunidores é comumente chamado de “marido” e “mulher”.

Par de zunidores, ou "matapu".
Par de zunidores, ou “matapu”.

Percebam que a música Wauja não é tão somente sobre sexo, mas está vinculada a este de modo que o som dos zunidores é a própria expressão do encejo sexual, do gracejo. Ao mesmo tempo, é a expressão de uma disputa, de um tipo de competição por atenção e por ciúmes.

Talvez não precisemos ir tão longe para perceber essa relação música-sexo em outros contextos.O rock já foi descrito como um ritmo sexual, e aqui tomo por referência as declarações de John Blanchard. O axé, o samba, o forró, o funk… todos gêneros também acusados de serem intrinsicamente sexuais. Mas não gostaria de argumentar que a música leva necessariamente a sexualidade, tampouco que os ritmos citados, ou mesmo a música dos Wauja, são necessariamente sexuais. Mais uma vez: quando julgamos desta meneira, não estamos sendo rasos na interpretação? O exemplo dos Wauja nos indica outra hipótese: a música, em geral, não leva ao sexo, e o uso específico dos zunidores aponta para isso eles só são tocados em jogos de ciúmes. Mas quando percebemos sensorialmente o sexo, enquanto parte da nossa experiência corpórea e biológica, projetamos imagens e representações dele na cultura, na qual este toma papel central e, invarialvelmente, esse papel também encontra na música meio de expressão.

E por quê? Ritmo. A música é, dentre as linguagens e formas de conhecimento, a única que consegue dar plasticidade e ordem ao movimento do tempo com valores de intensidade, duração, altura e timbre, conforme argumentam Winfried Noth e Lucia Santaella. Claro: a maneira que conhecemos de compor música, com esses valores e conceitos, é uma construção ocidental. Outras culturas controem outros sistemas de composição. Mas, ainda assim, essa configuração é, sobretudo, uma configuração do tempo, que confere a ele ritmo.

Ritmo não conduz ao sexo. Mas o sexo é uma atividade ritmada. Ora, a vida tem ritmos. E é possível se alcançar alguma semelhança do ritmo sexual na construção do ritmo de uma música. Isto é, a música, na maneira de sua configuração, pode remeter a imagens sonoras internalizadas ou externalizadas, endógenas ou exógenas,  de maneira particular e coletiva, que, por sua vez, nos sensibilizam de diferentes maneiras, inclusive de maneira sexual.

Claro, estas são reflexões e hipóteses não postas a prova. Isto é um ensaio, lembra? Não estou com propósito científico. Eu mesmo não ouvi as músicas que os Wauja tocam para os seus jogos de sedução e ciúmes e não pude me atentar ao seu ritmo. Mas a música é imagem sonora. Como assim? Ora, imagens não são, necessariamente, visuais. Em outra oportunidade contarei aqui no Eks como o baião de Luiz Gonzaga me remete ao sertão sergipano de minha avó e às histórias de dor e de alegria que ela conta, muito embora eu mesmo nunca tenha visitado Sergipe. Isso é uma imagem sonora, e ela é fortíssima. Semelhantemente, alguns sons e ritmos podem nos remeter a uma experiência sexual. Comprei há quase um ano um disco de uma banda chamada Black Seeds. Foi uma sorte. Peguei sem conhecer, e nem poderia: era um grupo de militares que havia ganhado um concurso de bandas do exército americano em 1972. O disco é justamente a apresentação que lhe rendeu o prêmio. Escutem:

A música “Go Outside in The Rain” foi originalmente gravada pelo grupo The Dramatics, na Motown, em 1971. Escutem:

A canção não é sobre sexo. Na verdade, ela é bem triste. Fala de alguém que toma chuva e chora, enquanto suas lágrimas se misturam aos pingos do céu. No entanto, o ritmo, a cadência, a intensidade… a configuração musical remeteu, em mim, imagens sonoras que me sensibilizaram ao sexo, e eu não sei bem explicar o porquê. Não, eu não ouvi a música e virei um tarado. Mas digamos que ela mexeu comigo. Essa música é extremamente sensual. E eu estou falando especificamente da versão do Black Seeds.

Tenho insistido que essa “fertilidade” de temas sexuais na música parte, primeiramente, da experiência sensorial e corpórea do sexo. Sobre este tópico vou desenvolver com mais atenção a seguir. Também vale destacar que há uma ambivalência do sexo na cultura Wauja: ao mesmo tempo que é prazeroso e jocoso, portanto hedonístico, ele tem seu forte lado agônistico, do pênis representado como um guerreiro e dos jogos de ciúmes. Também pretendo desenvolver sobre essa ambivalência, daquilo que é a si e é, ao mesmo tempo, outra coisa.

O Tiago colocou bastante de si neste texto. Colocou tanto que precisamos separá-lo em três partes! Esta foi a primeira, e as outras duas serão publicadas nos sábados seguintes.
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Imagem destacada: Índios Wauja se preparam para uma dança ritual no Alto Xingu (Foto: Nicolas Reynard/The New York Times)

Sobre Tiago Mota

Tiago Mota é jornalista e mestrando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pesquisa sobre games e incorporações da tecnologia digital em ambientes comunicacionais e se interessa por música, cerveja e PoKéMoN!

Trilogia Espacial – Além do Planeta Silencioso

A Trilogia Espacial (também conhecida como Trilogia Cósmica ou A Trilogia de Ransom) é uma das declarações apologéticas do cristianismo e das filosofias de C. S. Lewis. Todo mundo conhece Nárnia (também de C. S. Lewis), e mesmo que você não se identifique com o cristianismo ainda sim deve ter curtido os filmes e talvez até dedicado um tempinho aos livros. Não é diferente com a Trilogia Espacial, o livro é banhado na cosmovisão cristã e nas visões filosóficas de C. S. Lewis, sem deixar de ser uma excelente ficção científica.

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Eu quero focar no primeiro livro, “Além do Planeta Silencioso”. C. S. Lewis era amigo do também incrível J. R. R. Tolkien (autor de Senhor dos Anéis) e eles decidiram escrever ficção científica. Enquanto Tolkien criaria uma história sobre viagem no tempo, Lewis ficou incumbido de escrever um conto sobre o espaço. É uma pena que a obra de Tolkien nunca foi concluída, mas Lewis gostou da brincadeira e acabou criando mais dois livros.

A época em que a trilogia foi escrita, 1938, é considerada como a era de ouro da ficção científica, onde as obras tratavam assuntos como “bom versus mal” ou exploravam os momentos de falha da humanidade que nos levariam a cenários de fim do mundo. Essas obras mostravam realidades alternativas a fim de evidenciar como a humanidade poderia se diferenciar caso fizesse escolhas diferentes. Isso tudo se resumia a oferecer esperança para a humanidade. É bom lembrar que a primeira guerra mundial havia terminado não havia muito tempo, e o mundo, principalmente a Europa e América, passava por um período muito tenso de transição do pós-guerra.

Lewis, através de sua Trilogia Espacial, oferece um tipo diferente de esperança. Não apenas a esperança do bem superando o mal, mas a esperança do céu. Na analogia que ele desenvolveu, o céu é algo físico, e estaria acessível a todos.

Então, após entender um pouco do background histórico e o intuito de Lewis com essa trilogia, vamos à ficção!

“Além do Planeta Silencioso” conta a história de Elwin Ransom, um filólogo (assim como a profissão de Tolkien por formação) que foi drogado, sequestrado e colocado numa nave espacial em direção a Malacandra (Marte), lá ele descobre o motivo de seu sequestro e sua aventura começa.

O livro é contado do ponto de vista de Ransom quase que inteiramente, mas isso não te limita a conhecer o folclore de Malacandra. Você é apresentado a três civilizações, que convivem harmoniosamente, e aos seus costumes. Os Hrossa, que se assemelham com lontras bípedes, mas mais magras e altas do que nós. Os Séroni que são humanoides de 4.5m de altura, possuindo sete dedos e penas pálidas. E os Pfifltriggi o povo sapo com cara de anta. As três civilizações são definidas como hnau. No livro, hnau é todo ser racional (consciente).

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Ransom navegando com um hross (por unseeliebeasties on tumblr)

Eu me interessei pelos costumes de cada civilização enquanto lia, são maneiras de se conviver que você não imaginaria ser possível para a humanidade, como por exemplo Ransom, que passa bastante tempo com os Hrossa e acaba aprendendo a língua deles. Descobre que a palavra para “mal” não existe e o que mais chega perto da definição de mal é “torto” para os Hrossa. Então não existem pessoas más entre os Hrossa, mas existem “pessoas tortas” ou “pessoas inclinadas”.

A mitologia se resume basicamente a uma metáfora da Bíblia, onde você tem os “eldili” (interpretados como anjos ou, raramente, como o Espírito Santo) que são seres de luz responsáveis por trazer mensagens do deus Maledil. E o líder dos eldili é o Oyarsa (mais provavelmente um arcanjo, também visto como uma alusão a Cristo) de Malacandra. Os “eldili tortos” e o “Oyarsa torto” foram lançados a terra, isso causou a sua corrupção, levando o planeta terra, chamado aqui de Thulcandra, a ser cortado da comunicação com o Céu Profundo. E por isso é chamado de “O Planeta Silencioso”. Isso é a base para a justificativa de tudo o que acontece na trilogia, explica o motivo de não termos feito contato com vida extraterrestre de forma abrangente ainda. Mostra o porquê do sequestro de Ransom por Divine e estabelece as regras para todas as outras interações que eu não quero estragar pra vocês.

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Oyarsa (por piuccheperfetto em deviantART)

Antes que eu comece a soltar spoilers, se você se interessa por ficção científica essa trilogia deve fazer parte da sua biblioteca. Ela foi escrita em um tempo que não havia clichês, esses foram estabelecidos pelas obras daquela época e não utilizados por elas. É o tipo de obra que abriu o caminho para as ficções modernas. Se você procura um livro com um forte apelo moralista, ou Cristão, ela é um must read. Lewis aborda as relações entre os povos humanos de forma análoga e que transcende o tempo, foi escrito num período de pós-guerra de muita tensão, mas é válido até os dias atuais. Se um tema ou o outro não é a sua praia, a mistura das duas coisas torna essa obra um prato cheio para qualquer leitor que procura algo diferente e que, após lê-la, quer se sentir questionado em cada decisão que toma.

Sobre José Astolfo

José Astolfo Caetano Burle Diniz Cavalcanti, nenhuma ascendência na família real. Estudante, trabalhante, jogante. 23 anos. Estudo menos do que devo, trabalho mais do que ganho e jogo mais do que devia. Estou sempre assistindo alguma série, ou reprisando Stargate. Recentemente comecei a ler bastante ficção fantástica estou aceitando sugestões do que ler, mas por enquanto estou ocupado com A Torre Negra e Brumas de Avalon.